Dupla nacionalidade portuguesa: o que diz o seu país
Portugal não lhe pede que abdique de nada. A Lei da Nacionalidade não exige renúncia a outra nacionalidade em nenhuma das vias, e só tira a portuguesa a quem declarar que não a quer. A pergunta «posso ter dupla nacionalidade?» tem, portanto, metade da resposta escrita em Lisboa e a outra metade — a que decide — escrita no seu país de origem. É essa metade que este guia arruma, país a país, cada linha com a lei desse país lida na fonte.
- Do lado português não há renúncia: nenhuma via de aquisição a exige.
- Índia, China e Nepal retiram a nacionalidade de origem automaticamente a quem adquire outra voluntariamente.
- Países Baixos retiram, mas com três exceções — uma delas é estar casado com um português.
- Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha (desde 2024) e Brasil (desde 2023) deixam-no manter as duas.
Uma coisa que a dupla nacionalidade não muda: os requisitos do pedido português são os mesmos para toda a gente, incluindo a prova de português — que continua a ser exigida, como explicamos no guia sobre as duas provas que o processo de nacionalidade pode exigir.
O que a lei portuguesa diz sobre ter duas nacionalidades
Três regras bastam. A primeira: nenhuma via de aquisição — residência, casamento, descendência — pede que renuncie à nacionalidade que já tem. A segunda: a perda da nacionalidade portuguesa depende de uma declaração sua; não acontece por viver fora nem por ter outro passaporte. A terceira resolve o conflito entre as duas:
«Se alguém tiver duas ou mais nacionalidades e uma delas for portuguesa, só esta releva face à lei portuguesa.»
Na prática: perante qualquer serviço do Estado português, é português e só português. O seu outro passaporte não lhe dá, em Portugal, um estatuto de estrangeiro que possa invocar. E a mesma lógica vale ao contrário — muitos países tratam os seus nacionais só como nacionais, seja qual for o segundo passaporte.
Quais países retiram a nacionalidade de origem
A tabela cobre os países que mais aparecem nas pesquisas sobre dupla nacionalidade portuguesa, em português e em inglês. Só entra um país cuja lei conseguimos ler no texto oficial; os que ficaram de fora ficaram porque a fonte não se deixou ler, não porque a resposta seja óbvia.
| País de origem | Ao adquirir a portuguesa | Onde está escrito |
|---|---|---|
| Índia | Perde automaticamente | Citizenship Act 1955, s. 9 |
| China | Perde automaticamente, se estiver radicado no estrangeiro | Lei da Nacionalidade de 1980, art. 9 |
| Nepal | Perde automaticamente | Citizenship Act 2063, s. 10 |
| Países Baixos | Perde, salvo três exceções | Rijkswet, art. 15 |
| Alemanha | Mantém (desde junho de 2024) | BGBl. 2024 I Nr. 104 |
| França | Mantém, salvo declaração expressa | Code civil, art. 23 |
| Reino Unido | Mantém; só perde por renúncia registada | British Nationality Act 1981, s. 12 |
| Estados Unidos | Mantém, salvo intenção de renunciar | 8 U.S.C. § 1481 |
| Brasil | Mantém (desde 2023) — guia próprio | Emenda Constitucional 131/2023 |
Índia: a perda é automática, e há o OCI
A lei indiana é das mais diretas. Quem, sendo cidadão indiano, «voluntarily acquires» a cidadania de outro país deixa de ser indiano «upon such acquisition» — no momento da aquisição, sem pedido, sem decisão, sem prazo para escolher. Não é uma sanção que o consulado aplica mais tarde: é o efeito da própria naturalização.
E o momento conta. Do lado português, a nacionalidade só produz efeitos a partir da data do registo. É nesse dia, e não no dia em que entrega o pedido, que a cidadania indiana termina.
O que a lei indiana oferece em troca é o registo como Overseas Citizen of India (OCI), aberto a quem foi cidadão indiano. Não é cidadania: a mesma lei exclui expressamente o voto, os cargos eletivos e o emprego público. Mas mantém uma ligação legal ao país, com os direitos que o governo indiano atribui a esse estatuto — e é o passo a preparar antes de o registo português sair.
China e Nepal: a mesma regra, com um pormenor chinês
A lei chinesa começa por declarar que a República Popular «does not recognize dual nationality» para nenhum nacional chinês. A perda automática aplica-se a quem está «settled abroad» e adquire outra nacionalidade «of his own free will». Quem vive em Portugal e aqui se naturaliza está exatamente nessa situação.
O Nepal escreve quase a mesma frase: o cidadão que adquire voluntariamente a cidadania de um país estrangeiro «shall automatically lose the citizenship of Nepal». O texto que citamos é a versão em inglês de 2006 depositada na base de legislação da OIT; a lei nepalesa foi alterada depois, e para o seu caso concreto convém confirmar a redação atual na embaixada.
Países Baixos: perde-se, mas não se for casado com um português
A regra-base neerlandesa é a perda: um adulto deixa de ser neerlandês «door het vrijwillig verkrijgen van een andere nationaliteit». Mas a mesma norma afasta essa perda em três casos, e um deles é muito comum entre quem pede a nacionalidade portuguesa:
- nasceu no país da nova nacionalidade e vive lá quando a adquire;
- viveu lá pelo menos cinco anos seguidos antes de ser maior de idade;
- é casado com alguém que tem essa nacionalidade.
Um neerlandês casado com uma portuguesa que pede a nacionalidade pela via do casamento cai na terceira exceção e mantém as duas. Um neerlandês solteiro que se naturaliza por residência, não.
Há ainda uma regra neerlandesa que assusta quem já tem as duas: a perda para quem vive treze anos seguidos, como adulto, fora dos Países Baixos. Só que a lei exclui desse prazo os territórios onde se aplica o Tratado da União Europeia — e Portugal é um deles. Viver cá não faz correr esse relógio.
Onde se mantém: Alemanha, França, Reino Unido, Estados Unidos
Alemanha. Até 2024, um alemão que adquiria outra nacionalidade a seu pedido perdia a alemã. A lei de modernização da nacionalidade, publicada em março de 2024, revogou essa norma, e desde junho desse ano a aquisição de outra nacionalidade já não tira a alemã. Quem se naturalizou noutro país antes disso está numa situação diferente e deve verificá-la à parte.
França. O francês maior de idade, residente no estrangeiro, que adquire outra nacionalidade só perde a francesa «que si elle le déclare expressément». Sem declaração, fica com as duas.
Reino Unido. A lei britânica não liga a perda à aquisição de outra nacionalidade. A única saída voluntária é uma declaração de renúncia, registada pelo ministro do Interior britânico — e só é registada se a pessoa ficar com outra nacionalidade.
Estados Unidos. A naturalização noutro país consta da lista de atos que podem fazer perder a nacionalidade americana, mas só quando praticada «with the intention of relinquishing United States nationality». Naturalizar-se português para viver na Europa, sem essa intenção, não chega.
Como ler a lei de um país que não está na tabela
Se o seu país não aparece acima, a resposta está na lei da nacionalidade dele, e quase sempre cabe em três perguntas. Primeira: a perda é automática («shall cease», «perde», «verliert») ou depende de uma declaração ou pedido seu? Segunda: há exceções — casamento, nascimento no outro país, residência na infância? Terceira: a partir de quando conta — da aquisição, do registo, de uma decisão? Com estas três respostas lidas no texto oficial, sabe mais do que a maior parte dos resumos que circulam online, que costumam copiar a regra de há dez anos.
Um aviso prático: países mudam. A Alemanha e o Brasil mudaram nos últimos três anos, ambos no sentido de deixar manter. Um resumo sem data sobre o seu país vale pouco; a lei consolidada no site oficial do seu governo vale tudo.
E o caminho inverso: largar a portuguesa
Se um dia precisar de escolher — porque o seu país de origem só o aceita de volta sem outra nacionalidade, por exemplo — a lei portuguesa deixa sair quem tem outra nacionalidade, por declaração. É uma porta que só existe para duplos nacionais: ninguém pode ficar apátrida por renunciar. O procedimento, o custo e o que acontece depois estão no guia sobre quando se pode perder a nacionalidade portuguesa.
O que fazer antes de pedir, consoante o seu caso
Se o seu país retira a nacionalidade (Índia, China, Nepal, Países Baixos sem exceção): a decisão é sua e é real. Conte com a perda na data do registo português, trate antes do que depender do passaporte antigo — heranças, propriedade, contas — e, no caso indiano, prepare o pedido de OCI.
Se o seu país mantém: não há nada a comunicar ao seu consulado para «guardar» a nacionalidade. Continue a usar os dois documentos, cada um no seu país.
Em qualquer caso, os requisitos portugueses não mudam com o passaporte que traz: são os da via que escolheu, e o conhecimento da língua e de Portugal faz parte deles. Se quer ter uma ideia de onde está nessa parte, o simulador gratuito mostra-lhe em dez minutos que tipo de perguntas sobre Portugal convém saber responder.
Fontes
- Lei da Nacionalidade Portuguesa (Lei n.º 37/81), artigos 8.º, 12.º e 27.º
- The Citizenship Act, 1955 (Índia), sections 7A, 7B e 9
- Nationality Law of the People's Republic of China (1980), articles 3 e 9
- Nepal Citizenship Act, 2063 (2006), section 10
- Rijkswet op het Nederlanderschap (Países Baixos), artikel 15
- Gesetz zur Modernisierung des Staatsangehörigkeitsrechts, BGBl. 2024 I Nr. 104 (revoga o § 25 StAG)
- Code civil (França), article 23
- British Nationality Act 1981 (Reino Unido), section 12
- 8 U.S. Code § 1481 (Estados Unidos), loss of nationality by native-born or naturalized citizen
